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  • Oscar Freire: a rua que mudou de código

    Em um passeio atento numa tarde de muito calor pelos Jardins, eu como boa Paulistana, nascida e criada, vivi a Rua Oscar Freire quando ela ainda significava algo que não precisava ser explicado.

    Você chegava e sabia onde estava. A vibe era clara.

    Acho que por volta de 2011, era um lugar onde as coisas custavam caro e valiam o preço, e você pagava também pela segurança de saber que estava no lugar certo. Cartier, Louis Vuitton, Dior, Versace, Salvatore Ferragamo. As marcas que todo mundo sabia onde encontrar.

    O Promenade Chandon acontecia todo ano: música, arte, moda, celebridades. Era evento que você anotava no calendário.

    Oscar Freire significava seleção. Escassez de acesso. Significava status de escolha. Quem passava ali sabia exatamente o que aquilo representava.

    As vitrines eram cuidadas como galerias de arte. As pessoas andavam pela rua com propósito. Havia uma lógica clara entre preço, significado e pertencimento.

    Aí as coisas começaram a mudar silenciosamente.

    Em 2015, algumas grandes marcas saíram. Depois vieram os prédios residenciais de alto padrão. As lojas que ficaram entraram para dentro de galerias. Outras viraram shoppings. A rua não desapareceu, mas se reorganizou.

    A energia que era concentrada dispersou. Ruas adjacentes como Haddock Lobo, Bela Cintra, Melo Alves, começaram a ter seu próprio movimento. Você não mais ia para Oscar Freire como ia para a Quinta Avenida ou Bond Street.

    Ia para um lugar específico, uma loja específica, um restaurante específico. Ou não ia.

    O “padrão Oscar Freire” se espalhou. Mas isso também significou que Oscar Freire deixou de ser o lugar único.

    O jeito de comprar mudou. O algoritmo entrega em casa. A pandemia acelerou isso de um jeito que ninguém esperava. A classe média que mantinha esse fluxo encolheu. O Brasil fica economicamente complicado em ciclos, e isso muda comportamento.

    E tem ainda a questão da rua em si. São Paulo ficou uma cidade mais difícil de caminhar à noite. Furtos de celular viraram algo comum. Motociclistas, furtos. Você passa com cuidado diferente de dez anos atrás, e isso muda tudo.

    Problemas econômicos, problemas sociais, e a Oscar Freire virou um espelho do que o Brasil está vivendo. Não é só uma rua badalada que perdeu o brilho. É também um retrato de um mercado que mudou de código.

    E ainda assim…

    No final do meu passeio, em frente ao Quatrino — que ainda está ali, que segue sendo clássico — me deparei com Ney Matogrosso na calçada. Ícone da música brasileira, 80 e poucos anos, ainda ativo, fazendo shows e representando algo que São Paulo criou.

    Paro e penso: Oscar Freire, mesmo diferente, segue sendo surpreendente. Não é mais o que era.

    As lojas de luxo ainda existem, mas é menos óbvio, menos pujante. Está dentro de galerias, dentro de shoppings, espalhado nas ruas entre luxo, comércios simples, moradores de rua. O glamour é outro — não aquele que você exibe na vitrine para quem passa. É mais discreto. Ou talvez tenha sumido mesmo.

    Outro ritmo, em outro formato, para outras pessoas.

    Caminhar pela Oscar Freire agora não é decadência. É transformação — um lugar em transição que a gente ainda não consegue nomear ao certo.

    E a nossa São Paulo é assim também. A gente segue aqui, caminhando.

    Onde vivenciar Oscar Freire hoje

    Mesmo transformada. Para quem quer caminhar pela rua, experienciar a transformação, ou simplesmente estar onde a cidade está se reinventando.

    Restaurantes

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